O ego é uma falsa noção de algo que não existe em absoluto. ‘Eu” significa um centro que pode prometer. Esse centro é criado por estar continuamente consciente, constantemente consciente. Esteja consciente de que você está fazendo alguma coisa – de que você está sentado, que agora você está indo dormir, que agora o sono está chegando, que você está caindo no sono. Tente estar consciente em todo momento, e então você começará a sentir que um centro nasceu dentro de você, as coisas começaram a cristalizar, um centramento está ali. Tudo agora se relaciona a um centro. Nós estamos sem centros. Algumas vezes nós nos sentimos centrados, mas aqueles são momentos em que a situação torna você consciente. Se de repente existe uma situação, uma situação muito perigosa, você começa a sentir um centro em você porque no perigo você se torna consciente. Se alguém vai matá-lo, naquele momento você não pode pensar, naquele momento você não pode estar inconsciente. Toda a sua energia está centrada, e aquele momento se torna sólido. Você não pode se voltar para o passado, nem pode se voltar para o futuro. Este exato momento se torna tudo. E então você está consciente não apenas do matador: você se torna consciente de si mesmo – daquele que está sendo morto. Naquele momento penetrante você começa a sentir um centro dentro de si mesmo. É por isso que os jogos perigosos exercem atração. Pergunte a alguém que está indo escalar o topo do Gourishankar, do Monte Everest. Quando pela primeira Hillary foi até lá, ele deve ter sentido um centro subitamente. E quando pela primeira vez alguém chegou à Lua, uma súbita sensação de um centro deve ter ocorrido. É por isso que o perigo atrai. Você está dirigindo um carro e vai aumentando mais e mais a velocidade, até que a velocidade se torna perigosa. Então você não consegue pensar; os pensamentos param. Então você não pode sonhar, não pode imaginar. Então o presente se torna sólido. Em tal momento perigoso, quando a qualquer momento a morte é possível, de repente você fica consciente de um centro em si mesmo. O perigo somente atrai porque em perigo você algumas vezes se sente centrado.
Nietzsche disse em algum lugar que a guerra deveria continuar porque somente na guerra um Eu às vezes é sentido – um centro é sentido – porque guerra é perigo. E quando a morte se torna uma realidade, a vida se torna intensa. Quando a morte está bem próxima, a vida se torna intensa e você fica centrado. Em qualquer momento em que você se torna consciente de si mesmo, existe um centramento. Mas se isso é situacional, então quando a situação se desfaz aquilo desaparece. Isso não deve ser apenas situacional. Isso deve ser mais interno. Assim, tente estar consciente em toda atividade comum. Quando sentar em sua cadeira, tente isso: esteja consciente de quem está sentado. Não apenas da cadeira, não apenas do quarto, da atmosfera ao redor, esteja consciente daquele que está sentado. Feche seus olhos e sinta você mesmo; pesquise profundamente e sinta você mesmo. Herrigel estava aprendendo com um Mestre Zen. Por três anos continuamente, ele esteve aprendendo a arte de manejar o arco. E o Mestre sempre lhe dizia, ‘Está bom. Tudo o que você está fazendo está bom, mas ainda não é o bastante.’ Herringel tornou-se um arqueiro mestre. A sua pontaria tornou-se cem por cento perfeita, e ainda assim o Mestre lhe dizia, ‘Você está indo bem, mas ainda não o bastante.’ ‘Com uma pontaria cem por cento perfeita!’ disse Herrigel. ‘Então, o que você espera? Como eu posso agora ir mais adiante? Com cem por cento de precisão, como você pode esperar algo mais?’
Conta-se que o Mestre Zen lhe disse, ‘Eu não estou me referindo à sua arte de manejar o arco, nem à sua pontaria. Eu estou me referindo a você. Tecnicamente você se tornou perfeito. Mas quando a sua flecha deixa o arco, você não está consciente de si mesmo, então tudo isso é fútil. Eu não estou interessado na flecha alcançando o alvo. Eu estou interessado em você! Quando a flecha no arco é lançada, internamente também a sua consciência deve ser lançada. E mesmo se você errar o alvo, isso não faz diferença alguma, mas o alvo interior não deve ser errado, e você o está errando. Você se tornou tecnicamente perfeito, mas você é um imitador.’ Mas para uma mente ocidental ou, na verdade, para uma mente moderna (e a mente ocidental é a mente moderna), é muito difícil se conceber isso. Isso parece tolice. A arte do manejo do arco diz respeito a uma eficiência em se ter uma mira muito particular. Aos poucos Herringel foi ficando desapontado e um dia ele disse, ‘Agora estou indo embora. Isso parece impossível. Isso é impossível! Quando você está mirando em algo, a sua consciência vai ao seu alvo, ao objeto, e se você quiser ser um arqueiro bem sucedido você terá que se esquecer de si mesmo – para se lembrar apenas da pontaria, do alvo, e esquecer o resto. Somente o alvo deve estar ali.’ Mas o Mestre Zen estava continuamente forçando-o a criar um outro alvo interno. Este arco deve ser usado para atirar em dupla direção: apontando para o alvo externo e continuamente apontando em direção ao interno – o Eu. Herrigel disse, ‘Agora eu me vou. Isso parece impossível. A sua condição não pode ser satisfeita.’ E no dia em que estava partindo, ele estava sentado. Ele veio para despedir-se do Mestre, e o Mestre estava apontando para um outro alvo. Outra pessoa estava aprendendo e pela primeira vez Herrigel não estava envolvido. Ele estava sentado e só estava ali para se despedir. No momento em que o Mestre terminasse sua aula ele iria se despedir e partir. Pela primeira vez, ele não estava envolvido. Mas então, de repente, ele tomou consciência do Mestre e da consciência duplamente direcionada do Mestre. O Mestre estava mirando. Por três anos continuamente ele esteve com o mesmo Mestre, mas ele estava mais interessado em seu próprio esforço. Ele nunca viu realmente esse homem – o que ele estava fazendo. Pela primeira vez ele viu e percebeu, e de repente, espontaneamente, sem qualquer esforço, ele veio até o Mestre, pegou o arco de suas mãos, mirou o alvo e lançou a flecha. E o Mestre disse, ‘O.K.! Pela primeira vez você conseguiu. Eu estou feliz.’ O que ele fez?Pela primeira vez ele estava centrado em si mesmo, o alvo estava lá, mas ele também estava lá – presente. Assim, tudo o que você estiver fazendo, tudo – não precisa ser a arte de manejo de arco: tudo o que você estiver fazendo, até mesmo o simples estar sentado – esteja duplamente direcionado. Lembre-se do que está acontecendo do lado de fora e também se lembre de quem está dentro. (....) Não me pergunte ‘Quem sou eu?’ Feche os olhos, vá para dentro e descubra quem está perguntando, quem é esse questionador. Esqueça de mim. Descubra a fonte da pergunta. Vá profundamente para dentro. (....) Isto tem que ser descoberto e consciência significa o método para se descobrir esse centro mais interno. Quanto mais inconsciente você for, mais distante você estará de si mesmo. Quanto mais consciente, mais próximo de alcançar a si mesmo. Se a consciência for total, você estará no centro. Se a consciência for menor, você estará próximo da periferia. Quando você está inconsciente você está na periferia, onde o centro é completamente esquecido. Assim, essas são as duas possibilidades de se mover. Você pode se mover para a periferia; então você se move para a inconsciência. Sentado diante de um filme, sentado em algum lugar ouvindo uma música, você pode esquecer-se de si mesmo; então você está na periferia. Mesmo me ouvindo, você pode esquecer-se de si mesmo. Então, de novo, você está na periferia. Lendo o Gita ou a Bíblia ou o Corão, você pode esquecer-se de si mesmo. Então você está na periferia. Tudo o que você fizer, se você puder lembrar-se de si mesmo, então você estará próximo do centro. Até que um dia, de repente, você estará centrado. Então você terá energia. Essa energia, esse sutra diz, é o fogo. Toda a vida, toda a existência, é energia, é fogo. Fogo é um nome velho; agora eles chamam isso de eletricidade. O homem rotulou isso com muito nomes, mas fogo é um bom nome. Eletricidade parece um pouco morto; fogo parece mais vivo. Esse fogo interno, o sutra diz, é o incenso. Quando alguém vai a um culto, leva algum incenso, dhoop, com ela. Aquele dhoop, aquele incenso, é sem utilidade a não ser que você tenha vindo com seu fogo interno como sendo o incenso. (.....) Aja atentamente. Esta é uma jornada longa e árdua e é difícil estar consciente até mesmo por um simples momento. A mente está constantemente batendo as asas. Mas isso não é impossível. Isso é árduo, isso é difícil, mas não é impossível. É possível! Para todo mundo isso é possível. Somente esforço é necessário – um esforço com todo o coração. Nada pode ser deixado para trás: nada internamente deve ser deixado sem ser tocado. Tudo deve ser sacrificado pela consciência. Somente então a chama interna será descoberta. Ela está ali. Se alguém descobrir a unidade essencial entre todas as religiões que já existiram ou que ainda possam existir, então essa simples palavra ‘consciência’ será a descoberta. (....) Consciência é a técnica para se centrar, para alcançar o fogo interno. Ele está ali dentro. E uma vez que ele seja descoberto, somente então nós somos capazes de entrar no templo – não antes, nunca antes. Mas nós podemos enganar a nós mesmos com os símbolos. Os símbolos existem para nos mostrar realidades profundas, mas nós podemos usá-los como fraudes. Nós podemos queimar um incenso externo, nós podemos adorar objetos externos, e então nos sentirmos à vontade, achando que fizemos alguma coisa. Podemos nos sentir religiosos sem que sejamos absolutamente religiosos. Isso é o que está acontecendo; é nisso que a terra se tornou. Todo mundo pensa que é religioso só porque está seguindo símbolos externos, sem qualquer fogo interno. Continue fazendo esforços mesmo se você fracassar. Você está no começo. Você irá fracassar mais vezes, mas mesmo o seu fracasso irá ajudá-lo. Quando você fracassa ao tentar ser consciente por um simples momento, você sente pela primeira vez o quanto você é inconsciente. Caminhando ao longo da rua, você não consegue dar alguns poucos passos sem cair na inconsciência. De novo você se esquece de si mesmo. Você começa a ler um letreiro e esquece de si mesmo. Alguém passa, você olha e então esquece de si mesmo. Os seus fracassos serão úteis. Eles lhe mostrarão o quanto você é inconsciente. E mesmo se puder se tornar consciente de que você é inconsciente, você terá ganho uma certa consciência. Se um louco se tornar consciente de que ele é louco, já estará no caminho da sanidade.” |